21 Julho 2008

O AMOR DE TRANSFERÊNCIA

Por Susan Gugguenheim

O famoso texto de Freud sobre o Amor de Transferência é parte dos textos conhecidos como Os Escritos Técnicos em que Freud recomenda aos jovens psicanalistas como lidar com a difícil tarefa de analisar. Analisar, para Freud naquela época era basicamente tratar das histéricas e fazer delas pessoas menos infelizes. Neste pequeno trabalho, sobre o Amor de transferência temos um resumo do que pode acontecer com alguém que por seus sofrimentos, bate a porta de um psicanalista. O amor não é instantâneo. Ele se dá ao longo de uma relação (terapêutica) e como todo amor, segue o seu caminho ou descaminho. Freud queria prevenir os incautos: cuidado com o amor de transferência. Ele é a possibilidade da análise acontece ou a sua desgraça. Muito mais tarde alguns analistas teorizaram a cerca da contra transferência, alegando que é ela que move o analista. Será?

Não se sabe, na verdade o que se passa entre as quatro paredes de um consultório. O que é dito, deitado no divã e o que é percebido por aquele que está sentado na poltrona ouvindo as mais íntimas histórias.

É a partir desta clínica especial que a psicanálise produz este amor surgido deste encontro entre duas pessoas.

Todo psicanalista é afetado caso seja amado ou odiado, sensibiliza-se com a peculiar situação. Passa a ter uma consideração especial pelo seu paciente. Ele se destaca da multidão despertando compaixão, alegria, tristeza, etc.

Qual o psicanalista que não se alegra quando o seu cliente passa no vestibular, é promovido no emprego ou se comove com o falecimento de familiares de seu paciente. O analista muitas vezes é convidado para aniversários, missas, formaturas de seus pacientes. Em geral ele não comparece. Por quê? Não quererá demonstrar a sua emoção ou quer seguir um escrito técnico? Cada qual terá os seus motivos e explicações racionais.

Mas não estamos no campo do pensamento racional embora toda a técnica psicanalítica diga o contrário. Como na canção o poeta pergunta: quem inventou o amor?

Não fui eu nem ninguém. O amor acontece na vida. Será que Freud falava disto em 1924?

16 Julho 2008

A MORTE E A MORTE DE SIGMUND FREUD

Por Rogerio Silva

Não. Naõ é um Jorge Amado quem está escrevendo e nem se trata de Quincas Berro d´Água. É que Freud que já morreu em 1939, pode voltar a morrer. Desta vez através de sua grande criação. A psicanálise.

Quem nos conta essa possibilidade é Aldo Pereira em seu artigo publicado ontem na página 3 da Folha de São Paulo. Num belíssimo artigo. Ele brinca de William James, para dizer que a obra de Sigmund Freud contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original. O que ele pretende é mostrar que entre o falso e o verdadeiro pode estar ou não o original.

A Associação Psiquiátrica Americana excluiu de seu "Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais", todos os "complexos" e "neuroses". Essa decisão, tomada na década de 80, causou progressivo declínio na formação de psicanalistas americanos.

O pós modernismo (principalmente o Frances) tornou-se uma religião laica que teve com Jacques Lacan, Jacques Derrida e Jean Baudrillard um oráculo hermético do pessoal da "nova era". A psicanálise acabou sendo vista junto com uma cultura "alternativa" de crenças e práticas mágicas, orientalistas, esotéricas, naturalistas, ocultistas etcetera.

A proposta de Lacan em tornar aquele que procura analise num analista muda essa questão na França. Todo um processo desenvolvido por ele retira a psicanálise da esfera científica. Para Contardo Calligaris em “Cartas a um jovem terapeuta” (Elsevier, 2008, Rio de Janeiro), a psicanálise não pode ser considerada uma psicoterapia, já que ela não se propõe a uma cura e sim uma transformação

Até mesmo a medicina busca uma maneira discreta de rejeitar a psicanálise. Tal repúdio confere drama e comédia à partilha do legado intelectual de Freud. Que órfãos se credenciam como herdeiros legítimos do espólio? Qual das entidades pretensamente representativas é guardiã do credo autêntico? Questiona Aldo.

Em 19 Fevereiro 2007 eu escrevi neste blog POR UMA EXPERIENCIA RELIGIOSA com a intenção de mostrar a necessidade de um certo ateísmo por aquele que se propõe a ser analista. Nesse texto, Freud descreve uma passagem como conseqüências de uma entrevista dada a um jornalista teuto-americano G. S. Virec que o indaga sobre a sua crença na religião durante uma visita sua aos Estados Unidos.

É preciso estar desprovido de uma crença religiosa para poder perceber, no discurso daquele que procura a analise, o seu ponto de conflito. Por isso, Freud nunca se viu um profeta fundador duma religião secular. Muito menos teria ele acolhido convergência entre psicanálise e crença mística. É, portanto impensável o sincretismo que ocorre no Brasil entre psicanálise e seitas cristãs, sejam elas católicas, sejam evangélicas.

O que Aldo pretende demonstrar, é que hoje, psicanalistas filiados a alguma das muitas instituições de psicanálise se vêem concorrentes de profissionais formados por entidades como a Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil. Após curso de dois anos, você pode sair psicanalista clínico pela SPOB. Colega, imagine, da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (turma de 2003). Afirma Aldo.

O Instituto de Educação Superior e Pesquisas Avançadas oferece cursos "à distância" de psicanálise clínica livre. As modalidades apresentadas vão desde uma formação acadêmica de terceiro grau até o mais alto grau de pós-graduação.

Original? Pode ser... mas psicanalitico, tenho dúvidas.

Não se trata de questionar os modos utilizados por essa Instituição para a formação de seus seguidores, mas sim questionar o modo de intervenção no processo de mudança proposto por Freud. Isso sim, seria uma outra morte.

15 Julho 2008

ÓRFÃOS DE FREUD

ALDO PEREIRA


A obra de Sigmund Freud contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original


A OBRA de Sigmund Freud (1856-1939) contém muito de original e verdadeiro. Mas o original não é verdadeiro; e o verdadeiro não é original. (Você dirá que tampouco essa glosa é original, já que adapta epigrama atribuído ao dicionarista, poeta e crítico inglês Samuel Johnson (1709-1784). Mas acolha como atenuante que a citação é provavelmente apócrifa: não figura em escritos nem de Johnson nem de contemporâneos seus.) Exemplo de verdadeiro, na psicanálise, é o conceito de inconsciente.

(...)

Psicanalistas evangélicos se habilitam a induzir indistintamente catarse ou exorcismo sem confundir neurose com possessão demoníaca. Um deles sugere que, para obter diagnóstico diferencial, o terapeuta encare o paciente e exclame: "Jesus!". Se incorporado, o demônio se manifestará num espasmo furioso do possesso.

Verdadeiro? Discuta-se. Original?

Não se discute.


ALDO PEREIRA , 75, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha. aldopereira.argumento@uol.com.br


Publicado na Folha de S.Paulo em 15/07/2008 pag 3 em TENDÊNCIAS/DEBATE


13 Julho 2008

O ESTRANGEIRO

Por Rogério Silva

quem é esse estrangeiro?
ousa entrar em minha casa?
o que quer,
que nem mesmo anuncia?

não me diz quem é,
o que gosta.
não tira os olhos de mim.
me atormenta.

sua língua, eu não conheço,
mas arrisca me dar conselhos.
não. não quero, não ouço, não ouso.
não me venha com xurumelas.

quer fazer barganhas.
diz que gosta de mim.
que me ama.
ah! mas também me odeia!

o que quer de mim?
minha pele?
meu pensamento?
minha dor?

já usa o que é meu!
sem licença nem favor.
me gasta sem pudor.
me assusta. me causa horror.

dia desses quis matá-lo.
Juro! fazer dele picadinho
e dar pros porcos.

não posso...
o outro de que falo
está em mim. vive comigo
muitos anos, sempre juntos.

somos estranhos,
infamiliar, familiar.
gira roda de fogo!
gira! gira!

esse homem de areia*,
que no conto baqueia.

esse estrangeiro sou eu.

*”O homem de areia”, conto de E. T A. Hoffmann, no qual Freud se baseou para escrever Das Unheimlich, 1919, traduzido para a língua portuguesa como “O estranho”.

07 Julho 2008

DEUS PODE BEBER E DIRIGIR?

Por Rogério Silva

É dever moral evitar acidentes causados pelo exagero no consumo de bebida alcoólica. É dever do Estado coibir o desatino de pessoas alcoolizadas dirigirem seus veículos; cabe-lhe puni-las segundo o rigor da lei. Como, porém, se determina esse rigor para torná-lo efetivo?

Com essa pergunta Giannotti (A lei seca e a secura do Estado, no caderno mais! da Folha de S. Paulo) tenta organizar seu pensamento sobre a questão do uso da bebida e a direção de veículos. Segundo ele bastaria que o Estado se ocupasse de suas prerrogativas para acabar de vez com o problema.

Mesmo admitido que a bebida, no caso o vinho, possa trazer algum benefício à saúde como ele o faz, um Estado forte teria condição de controlar seus cidadãos minimizando o problema.

A mídia contabiliza que 30% dos acidentes são causados por pessoas que fizeram uso da bebida alcoólica. O que fica parecendo que não beber causa mais acidente. Sabemos que não é assim, pois ai está: o mal estado das estradas, culpa do Estado; o mal estado de conservação dos carros, culpa dos cidadãos e outros fatores.

A punição parece ser sempre uma forma legitima e eficaz de coibir abusos. Será? O que sempre vejo é que quando não se quer saber, nem punir cria-se uma comissão de inquérito. Vamos apurar. Apurar o quê? Nunca temos a resposta.

Se há o infrator e há a lei, a punição sempre nos parece inevitável. Mergulhamos no mar da apuração e nada acontece. Não precisamos de lei. Temos talvez, as mais bem boladas leis do mundo.

Por que então a punição não funciona? Eu poderia estar sendo simplista ao dizer que essas leis criam dificuldades e o seu subproduto é a venda de facilidades. Um dinheirinho junto com os documentos e uns tapinhas nas costas muitas vezes acabam sendo o resultado. É que o homem no seu mais que legitimo direito à hipocrisia e arrogância se acha acima de qualquer coisa.

Tem aquele que diz assim: “eu tenho carteira há mais de trinta anos, sempre bebi e sempre dirigi e nunca causei um acidente sério.” Essa frase é exemplar para explicar alguns fenômenos. Ele não considera os acidentes que aconteceram por sua causa sem que esteja envolvido nas conseqüências. Por exemplo, ele avança o sinal e o que tinha o sinal livre breca e é tocado por outro, por trás.

Tem também, o que na sua arrogância e prepotência determina que consigo nada acontecerá. O raciocínio é mais ou menos assim: “se Deus é a imagem e semelhança do homem, Ele é a sua imagem e semelhança, logo ele é Deus.” Nessa lógica, o poder de Deus é para punir e não para ser punido.

Numa coisa eu concordo com Giannotti, chegamos a uma situação exótica. Em vez de o Estado determinar uma medida da segurança, simplesmente se isenta dessa medida e pune aquele que bebe moderadamente, ciente de seus limites e de suas obrigações sociais.

Em suma, se propõe punir a maioria para evitar que desregrados causem malefícios. Na Noruega e na Suécia, a tolerância é zero, mas eles têm lá suas razões.

Aqui, esse exagero simplesmente repete o espetáculo de violência de um Estado fraco, que encena uma força desproporcional a seus recursos simplesmente para atemorizar.

O Estado é fraco porque é feito para os fracos. Os "bobos", os "otários", aqueles que pensam no seu bem estar e no bem estar da comunidade e por isso mesmo, aceitam o seu rigor.

02 Julho 2008

SOMOS UNS TROUXAS...

Por Rogério Silva

Mesmo que sempre tenha havido corrupção na História do Brasil, mesmo que, tanto nos períodos de autoritarismo quanto nos de liberdade, a imprensa tenha deixado de denunciar os escândalos como deveria. Ou mesmo que, de governo para governo, haja o avanço da transformação da coisa pública em coisa privada. Ou ainda, haja a sofisticação da roubalheira como conseqüência natural da impunidade e do avanço da tecnologia. E, até mesmo se levando em conta a perda de valores morais por um número cada vez maior de cidadãos empenhados em “levar vantagem em tudo. Certo?”. Há uma pergunta que não quer se calar. Se uns fazem, por que os outros deixarão de fazer?

Foi com uma pergunta assim que Carlos Chagas começou a sua coluna publicada no Diário de Notícias no dia 10/06/2008 intitulado “A rebelião dos trouxas.”

Ele aponta que, de norte a sul, do leste ao oeste deste país, da elite às camadas mais humildes, aplicam-se golpes de toda espécie, maiores e menores, tanto pela esperteza quanto pela violência. Não há um setor capaz de escapar à avidez dos corruptos. Da educação à saúde, dos transportes às obras públicas, das comunicações ao comércio, da indústria e dos serviços. Do Legislativo ao Executivo e ao Judiciário, também.

Nas lides políticas e governamentais, empresariais, ou funcionais públicas parece haver uma palavra de ordem: promover e intermediar negócios escusos, corromper, assaltar, traficar, sonegar e, em maior ou menor grau, enriquecer. Tudo isso, é claro, sempre à custa dos cofres públicos e da sociedade como um todo.

“É bom tomar cuidado, porque a corrupção se institucionaliza a passos rápidos.” Adverte. Aquele que não rouba e não se envolve em maracutaias, que não aproveita a oportunidade de burlar a lei, passa a ser considerado bobo e antiquado. Será que um dia assistiremos à rebelião dos trouxas, dos que não roubam? Mas, existirão eles em número suficiente para fazer explodir as atuais estruturas?

Na tentativa de responder a essa pergunta, eu acredito que só uma eleição pode comprovar isso se pensarmos em termos de cidadania. Entende-se por cidadania (do latim, civitas,"cidade"), como a condição da pessoa natural que, como membro de um Estado, encontra-se no gozo dos direitos que lhe permitem participar da vida política.

A cidadania é o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permite intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a cargo público (indireto).

A nacionalidade ou a naturalidade são pressupostos da cidadania. Ser nacional ou natural é condição primordial para o exercício dos direitos políticos. Entretanto, se todo cidadão é nacional ou natural, nem todo nacional ou natural é cidadão. Os indivíduos que não estejam investidos de direitos políticos podem ser nacionais ou naturais sem serem cidadãos.

Aqueles que votam, sem os favores de tijolos, de telhas, de dinheiro, de alimentos ou de outras benesses, são cidadãos. Participar da vida pública, portanto, não constitui apenas ser votado. Institui principalmente o ser votante, o eleitor. Aquele que, quando comparece às urnas, tem o seu pensamento voltado para o coletivo, seus concidadãos. E que, após a posse, fiscaliza as ações de governo. Unidos, um a um, são capazes de transformar uma eleição num projeto do bem comum, sem que sejam considerados bobos ou antiquados. Sejamos cidadãos e não trouxas.

Publicado no Editorial do Jornal NOVOS RUMOS de Rio Preto, MG com o título: OS MALES DA CORRUPÇÃO

27 Junho 2008

ANUÁRIO PSICANALITICO INTERNACIONAL - 2008


L´Année Psychanalytique Internationale. 2008

Foi publicado, agora em Maio de 2008, o anuário do International Journal of Psychoanalysis para o público franco-fônico, L´Année Psychanalytique Internationale, no qual consta uma seleção dos mais importantes artigos publicados no International Journal of Psychoanalysis em 2007.


Sommaire du Volume 2008

RACHEL B. BLASS - ZVI CARMELI: Plaidoyer contre la neuropsychanalyse. A propos des idées fallacieuses qui sous-tendent la dernière tendance scientifique en psychanalyse et leur impact négatif sur le discours psychanalytique.


GLEN O. GABBARD - PAUL WILLIAMS : Un message d'adieu des rédacteurs.


MICHAEL FELDMAN: S'adresser à diverses parties du self.


GIOVANNA REGAZZONI GORETTI: L'identification projective : Une investigation théorique du concept à partir de « Notes sur quelques mécanismes schizoïdes ».


LEOPOLDO FULGENCIO: Le rejet par Winnicott des concepts fondamentaux de la métapsychologie freudienne.

GLEN O. GABBARD: « Enfermé dans une coquille de noix » : réflexions sur la complexité, le réductionnisme et « l'espace infini ».


THOMAS H. OGDEN: Parler-rêver.


JUDITH L. MITRANI: Protections centrées sur le corps à l'adolescence : Un développement de l'ouvre de Frances Tustin.


THOMAS H. OGDEN: Les éléments du style analytique : Les séminaires cliniques de Bion.


ELIZABETH M. WALLACE: Perdre un psychanalyste didacticien pour des raisons éthiques : Le point de vue d'une candidate en formation.


FERNANDO RIOLO: Les transformations psychanalytiques.


MICHAEL PARSON: Explorer l'inarticulé : La situation analytique interne et l'écoute au-delà du contre-transfert.


NEVILLE SYMINGTON: Une technique pour faciliter la création de l'esprit.

Pour commander le Volume 2008

Consulte o site http://www.frannuel.com/Volumesparus.htm

22 Junho 2008

FREUD EXPLICA ENTREVISTA VIRGINIA PORTAS

Por Rogério Silva

Inquieta e persistente, Virginia Portas construiu um percurso definido pela psicanálise. Passou por questões cujo desenvolvimento cultural e intelectual eram premissas básicas. Inicialmente definiu-se pela comunicação devido ao elenco de professores extraordinários e a atividade cultural ativa do setor, na década de 70. Formou-se em Comunicação Social pela PUC - RJ, em 1974. Na época ficou em dúvida entre psicologia e comunicação. O encontro com a psicanálise veio mais tarde. M.D Magno foi seu professor de epistemologia, e foi com ele que ela começou a estudar psicanálise. Em dois anos estudando Freud e Lacan, ficou capturada definitivamente pelo universo psicanalítico.


Na época, porém o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O seu diploma lhe habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda e marketing. Sua inclinação para o jornalismo era evidente. Fez estágio no jornal O GLOBO, onde foi absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. “Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.”

Pianista e musicista desde os 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, juntamente com a formação acadêmica foi trabalhar no rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM. Posteriormente, como produtora executiva assinou e apresentou seus próprios programas musicais. Estes programas, ela produzia com liberdade quase total. Entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Foi na Formação Freudiana que conheci Virginia, quando iniciávamos nossa trajetória. Desde o inicio o seu desempenho psicanalítico, se desdobrou tanto teórica, quanto institucional e clinicamente.

O blog Freud Explica teve o privilégio de publicar, em maio de 2006, Reflexões sobre a questão: "Os desafios às novas formas do modo do ser psicanalítico contemporâneo" de sua autoria. Prazer que se repete agora ao iniciar essa série de entrevistas.

Freud Explica: Qual a sua formação acadêmica e como você decidiu pela psicanálise?

Virginia Portas: Na verdade o que me fez definir por comunicação, e não psicologia foi o elenco de professores extraordinários e a atividade cultural muito ativa do setor na década de 70. Comunicação era a menina dos olhos da PUC/RJ. Como M. D. Magno foi meu professor de epistemologia e... não importa, mas na verdade tínhamos aulas de psicanálise com ele. Foram dois anos – 4 períodos estudando Freud e Lacan - de convívio com este universo que me capturou definitivamente.

Na época o curso de comunicação social era polivalente, ou seja, não exigia especialização. O selo do meu diploma me habilita ao jornalismo, relações públicas e propaganda/marketing. Como minha inclinação para o jornalismo era evidente fiz meu estágio no jornal, O GLOBO, onde fui absorvida para a editoria de educação – mais tranqüila, assim como a editoria de economia. Ambas ficavam num jirau em cima da “geral”, onde o jornal fervilhava realmente.

Mas, como “comunicóloga da PUC” - como me chamavam carinhosamente os mais experientes - era poupada das correrias e urgências da redação antes do fechamento das matérias do dia. O que era ótimo porque catava milho nas antigas e precárias máquinas de escrever antigas.

Essa foi a minha formação acadêmica.

A segunda é a de pianista e musicista formada aos 16 anos pelo Conservatório Brasileiro de Musica, portanto, alguns anos antes de entrar para a faculdade. As duas formações me levaram a trabalhar na rádio como revisora de programas de música “erudita” da Rádio MEC/ FM e, posteriormente, como produtora executiva, assinei e apresentei meus próprios programas musicais. Nesses programas, que produzia com liberdade quase total, entrevistava artistas e gravava concertos com a equipe técnica da casa.

Aqui se dá novamente meu reencontro indireto com a psicanálise iniciado na faculdade. Minhas entrevistas tendiam para um clima mais intimista. Penso que a intimidade estabelecida com os artistas que entrevistava, e que os conduzia para além da musica e da carreira profissional, reacendeu em mim o desejo de buscar uma formação psicanalítica. Posso dizer que foi um trabalho inovador, nesse sentido, no qual sentia um enorme prazer em viabilizá-lo.Talvez seja importante lembrar que na década de 80, início de 90, que foi o período em que trabalhei na Rádio MEC, não era nada habitual entrevistas na FM, sempre voltada, quase que exclusivamente à programas sobre música, apresentados com toda a pompa que a “música erudita” exigia naquela época.

Ainda trabalhando na rádio MEC iniciei minha formação no IBRAPSI (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições). Já estava no terceiro ano quando li um anúncio no jornal informando que a Formação Freudiana iniciaria suas atividades em 1993. Apresentei um trabalho, fui entrevistada e aceita como membro adjunto.

Desde então - lá se vão 15 anos! - participo ativamente das atividades institucionais da FF (Formação Freudiana). Tenho orgulho de ter sido a primeira pessoa a me titularizar na FF e a primeira a assumir a coordenação geral substituindo o fundador convocante da instituição, Chaim S. Katz. Mas antes disso fui coordenadora de eventos e coordenadora de ensino, substituindo Daniel Kupermann. A ênfase aqui, para além de uma vaidade evidente, é considerar o respeito e envolvimento mútuo que mantenho com a instituição e com meus colegas de jornada psicanalítica.

Freud Explica: Ao longo de sua formação analítica você deparou com vários autores diretamente ligados à psicanálise e a filosofia. Bourdier, Canetti, Walter Benjamin, Santner aparecem dentre outros. Quais ou autores que mais lhe chamaram a atenção?

Virginia: Desde criança sempre fui muito curiosa e uma leitora de livros compulsiva. Como faz parte da forma como nos encontramos na FF, uma convocação permanente à curiosidade e à leitura de múltiplos autores, incluindo os acima citados, juntou a fome com a vontade de comer. Sem esquecer que, para o bem ou para o mal, Chaim Katz é uma referência de pensador sólido, instigante, inquieto e nada dogmático. Penso que esta marca ele imprimiu à Formação Freudiana, que faz com que seus membros filiados busquem expansão teórica através da singularidade dos encontros que possam estabelecer com esta multiplicidade de autores. A base comum é sempre Freud e o pensamento psicanalítico teórico e a escuta clínica psicanalítica. Quanto às releituras freudianas cada um que encontre a sua.

Freud Explica: O que na teoria ferencziana mais lhe fascina?

Virginia: Pois é. A importância de Ferenczi na história do movimento psicanalítico é inquestionável, ainda que, do meu ponto de vista, não tenha atingido o reconhecimento que sua interlocução com Freud e seus achados teórico/clínico mereçam. Uma prova é a dificuldade de se adquirir os exemplares da sua obra. Acho-o um autor absolutamente contemporâneo. O volume IV das suas obras completas é tão impressionante pela abrangência e compreensão clínicas que surpreende pela atualidade das questões formuladas por ele. Mas o que mais me fascina em Ferenczi é a coragem com que ele se expõe se implica e vai além: “quando falta uma explicação não é proibido experimentar outra”, diz ele, mas absolutamente e rigorosamente dentro dos aportes psicanalíticos. É um pensador teórico rigoroso.

Na verdade, seu conceito de introjeção - no qual o sujeito se constitui junto com seu objeto de investimento, numa mesma laçada – abre a clínica para as idéias de potencialidade, virtualidade e possibilidade de criação estética. Ninguém sai imune a um encontro clínico: nem analista, nem analisando. Nesse sentido, a contratransferência, se admitida como instrumento de trabalho, como contra-força necessária, implica também em considerar e estabelecer outras responsabilidades já que a economia libidinal do analista também está em questão no processo clínico.

Freud Explica: O que é mais importante na clinica da psicanálise?

Virginia: Da parte do analista é estar em condições de estabelecer os seus limites e possibilidades. Ter isso claro para si e para quem lhe confia parte da sua vida. Isso é o ponto de partida fundamental. Quem procura análise, de uma maneira geral, é quem sofre por não saber equilibrar, administrar seu capital afetivo e pulsional, por isso conselhos servem tão pouco. Gosto da metáfora do jogo de xadrez de Freud: entramos no jogo e sabemos das regras, mas as jogadas têm que ser jogadas para ver no que dá.

Freud Explica: Como você vê a visibilidade na psicanálise hoje?

Virginia: Como diria Milan Kundera - não sei bem onde, mas certamente seguindo Freud - o homem começa perguntando de onde vim, para onde vou e o que posso. Essas perguntas nos perseguirão permanentemente. O que ele diz - e o que acho mais interessante - é que mesmo sem essas respostas, sempre poderemos ter formas novas e fascinantes de perguntar. Neste nosso mundo agitado acredito sinceramente que a clínica psicanalítica oferece estas pausas para que possamos nos encontrar com essas nossas perguntas fundamentais, permanentemente. Ou seja, é um lugar privilegiado para isso. Como a vida vive a despeito de nós e tem uma dinâmica que não dominamos e, freqüentemente nos exclui, lidar com isso é sempre um aprendizado, mas acredito que a psicanálise tem instrumentos para acompanhar esta dinâmica. Ou seja, mudam as coordenadas e ela também modifica suas formas de abordagem. Nesse sentido a psicanálise é transdisciplinar e virtualmente atual.

Freud Explica: A psicanálise deve ser regulamentada como profissão?

Virginia: É uma questão complicada, mas que tendo a responder que não. Uma formação psicanalítica passa pelo processo individual de análise, por uma supervisão da contratransferência deste analista em questão e do estudo teórico regular. Sem nenhuma dessas três vertentes não se concebe que alguém possa atender psicanaliticamente outro alguém. Por outro lado, para além do sujeito se reconhecer analista, ele tem que ser reconhecido pelos seus pares e por uma instituição que reconheça quem reconhece. Essas são as únicas direções. Sinceramente? Não sei como regulamentar um processo desta natureza, mas quer saber? Não faz questão para mim.

Freud Explica: Parece que você tem uma espécie de “guru” para cada aspecto da psicanálise como, por exemplo: teoria, Ferenczi; clínica, Fédida; filosofia, Deleuze; ética e psicose, Chaim. Gostaria que você dissesse se é assim mesmo.

Virginia: Acho que sou muito rebelde para ter guru. Aliás, por tudo que disse acima não acredito em guru. Psicanalista deve ter mestres e bons encontros que abram caminhos para novas reflexões e novas possibilidades. Nem Freud era guru de si mesmo.

Freud Explica: Como você vê atuação de um blog como esse na psicanálise?

Virginia: É um ponto de encontro interessante!

Acho uma oportunidade relevante para trocas, e saber o que nossos colegas pensam sobre temas atuais que permeiam o nosso cotidiano. No teu blog específico o que me encanta é o teu encantamento com ele. Como te conheço há anos permito-me este comentário pessoal.

Freud Explica: Quem leu o seu artigo aqui mencionado, teve a oportunidade de deparar com o que você chama de “as novas formas do modo do ser psicanalítico”. Como você avalia esse modo de ser da psicanálise diante da velocidade do mundo atual e a utilização de medicamentos com eficácia rápida?

Virginia: Pois é. Num artigo que escrevi para a revista Pulsional faço uma tentativa de sustentar teoricamente um pensamento para estas questões. Penso que, um bom encontro entre a grandeza da virtualidade da Psicanálise e a modéstia do psicanalista, paradoxalmente, podem fazer diferença, na direção das sutilezas e pequenos detalhes clínicos: e acompanhá-los sem fórmulas mágicas e com o mínimo de preconceitos.

Freud nos seus últimos escritos alerta para a possibilidade da existência de algo no registro do corpo pulsional que não se inscreve como sujeito. Com isso ele quase que destitui a idéia de sujeito, nos instigando a pensar em devir e recriação, por conta de uma desarmonia constitutiva de um corpo pulsional vivo em eterno confronto consigo, com o outro e com o mundo.

Ora, se há uma insubordinação constitutiva, de um aquém - sujeito - para além, esta mitologia freudiana indica que, antes de um sujeito poder se constituir como tal, algo indomável e imprevisível permanece atuante, não se submetendo à "incondicionalidade" previsível dos processos de subjetivação.

Psicanaliticamente, ainda que consideremos um sujeito do inconsciente constituído pelas leis da cultura/civilização, existe algo atuante no homem que não se harmoniza com elas, o que vai colocá-lo em permanente movimento e desassossego, já que esse algo não se encontra no registro do sujeito do inconsciente, mas no registro das pulsões.

Veja a complexidade se aceitarmos como verdade que existe algo no psiquismo que resiste radicalmente à completa absorção do sujeito pela civilização/cultura: esse algo estranho, ficando à parte desse diálogo,vai se configurar como o proto-representante da radicalidade e irracionalidade do ser humano, que tanto pode conduzi-lo aos limites da loucura, do desatino e da paixão, como também, paradoxalmente, pode conduzi-lo às fronteiras da arte, da criação e da singularidade, onde se destaca das regularidades das massas para se afirmar na radicalidade da diferença da sua singularidade

Trazendo esse argumento para a clínica, escutar esses engendramentos é fundamental e a modéstia do psicanalista a que me referi estaria em minimamente oferecer possibilidade de pequenos desvios que potencialize e não que regularize. Penso que assim a clínica psicanalítica escapa de soluções totalizantes para A Violência, As drogas, A hiperatividade e...Ou seja, não existem fórmulas mágicas, temos que acompanhar errâncias ...

Olha só, falei em modéstia, mas posso estar sendo arrogante...

Posso terminar com uma citação? Estava até agora evitando cair nesta tentação, mas adoro esta de Maurice Blanchot: “Se é preciso caminhar e errar, será porque, excluídos da verdade, estamos condenados à exclusão que impede toda a morada?

Esta errância não significa mais uma nova relação com o ‘verdadeiro’?

Não seria também por que este movimento nômade (onde se inscreve a idéia da divisão e separação) se afirma não como a eterna privação de uma estada, mas como uma maneira autêntica de residir, de uma residência que não nos prende à determinação de um lugar, nem à fixação face a uma realidade desde sempre instruída, certa, permanente?” (M. Blanchot)*

*Maurice Blanchot, L´expérience-limite, in L´entretien enfini.

21 Junho 2008

20 Junho 2008